quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

ALVORADA FALCÃO

Girassóis pensantes
em torno da mente - campo inteiro -,
a se germinar pela alma.

Misteriosamente mãe-Terra
de seus versados tons

Descobre a voz do peito
que Chico cantou

Se flor desabrocha
sob calado sereno
revela-se ao sol
semente rompendo o cimento

Do pólen viestes
só [mente] ao pólen voltarás

Enquanto - e para sempre
viva
En-cantos misteriosos
o entristecer da cotovia
e a mão segura do rouxinol

natureza: desacorrentando-se
pétala a pétala

(Dedicado à Silvia Ferrante).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Enlevo

Certas coisas são feitas apenas sob silêncio, essas: as que mais conduziam Joana.
À noite, secretamente, iniciavam-se os rituais dela. Voz doce - vinda de uma garganta que tremia hesitando entre o medo e a fúria do poder analiticamente empregado- boca vazia e pura. Acendia um incenso "Sangue de Dragão" - poderes mágicos -, comia algo leve sob a fumaça desenhada no ar, depois tomava o banho demorado: todos os produtos um ao lado do outro: sabonetes, cremes, esfoliantes, perfumes, maquiagens, o vestido preto de seda caindo sobre o corpo e desenhando o bico dos seios. Em tudo o que fazia acreditava que algo lhe aproximaria de Danilo, Joana trabalharia com a diversidade atemporal do universo e atrairia sua presa pelo inconsciente ou por um contato noturno e misterioso, entre as almas.

Em paz com seu ódio, repetia a si mesma: eu compreendo sem viver, eu compreendo sem viver. A cada vez que inventava, pintava dentro de si e com seu próprio sangue uma nova tela à qual ela mesma habitaria: a voz de Danilo coçava em sua nuca, como cravando na terra uma bandeira fina de felicidade colorindo a lentidão arrastada e morna dos dias.

Gerado o encanto, via-se ao espelho, a seiva que desce umedecera-lhe a virilha e as redondezas das coxas... Que mulher desejável. Sentia o cheiro do próprio prazer escorrendo-lhe pernas abaixo, olhou-se fundos nos olhos, bem ao fundo veria sua presa. O amor morava-lhe nos olhos. Lentamente, em um gesto que poderia lhe escapar a qualquer momento, desenhava sobre os seios uma superfície vermelha, criada pelo batom, preparando-se a adentrar os campos minados de batalha da vida, a cor dava-lhe a sensação de ser uma mulher moldável como uma argila de Vênus, velas acendiam-lhe no céu da boca e a luz afugentava pelos olhos, tão imensa beleza escapar-se-ia das retinas humanas, só tocar-lhe-ia algo de divino. Humanazinha, entretanto, e por vezes cansada, entregava-se aos limites de um destino de moça conveniente e incompleta; porém exorcista. Até ela mesma sentia ânsia por causar-se prazer com os dentes, em selvageria, enlouquecendo as quatro paredes do cômodo. Qual homem não se deitaria sobre o corpo de Joana? Danilo. Por quem ela se atiraria pela varanda do apartamento e morreria quebrada no chão, latejando seu romantismo tosco e clarividente de quem alucina demais.

Como entrar no mar sem pretensão de retorno. A eternidade envolta ao corpo como água a fazia querer buscar a fundo a cor dos olhos dele cercando-lhe à pele que ela o ofertara. Tudo o que fantasiava e sussurrava-se no âmago a feria por não ter autonomia, quando alcançava o etéreo através do frio que essas ideias coaguladas em sangue gelado dentro do espírito lhe faziam sentir, prendia-se a essa condição de eternidade, que viessem os gemidos e seguidamente o torpor: a tudo se ofertava para sentir-se inteira dentro de si mesma. Atingida a percepção, rompia os lacres daquilo que não era dela e comia faminta a própria verdade. Justamente o não realizar de seus desejos lhe fazia firmar-se a si mesma, parecia-lhe que ela era sonsa, debruçava-se pelo inacabado com voraz redenção: era para ter sido, mas porque somente eu compreendi não foi - dizia-se em culpa. Ia conduzindo a si mesma, encoberta e recolhida, em profunda solidão.

Pairava um pouco sobre uma visão da própria realidade, cabelos molhados de suor, o couro da cabeça quente, e com uma afobação variante, vagamente feita em suspiros, os olhos ficavam lacrimejantes de estar diante da próxima criação de si mesma. Em silêncio, desligando-se do mundo, ouvindo o sopro da cidade que apesar de adormecida estava viva, ouvia e sentia como cócegas no cérebro e no coração a voz amena e enraizada de Danilo:

“Joana, eu te contemplo agora, e teus suores são meu manjar insigne e devastador. Joana, o cheiro dos meus pelos estão em tuas orelhas, às pontas dos teus seios são pequenos cigarros de lírio aquecendo-me a garganta e a boca que te traga insaciável e entregue. Teu mundo flutuante e consistente penetrou em meus olhos; eu emburreci, sempre te quis e por medo virei o rosto, mas enchi-me de coragem e retornarei. Vamos nos retirar de onde estamos, meu anjo escarlate, imploro-te que me regenere e aceite... Minha ossatura cimentada se desfez em lava quando você pressionou meu peito. Venha até meu mundo sem deixar o seu, passeia tua língua por minhas juntas e extensões de pele convulsiva e ardente, faça avesso de minha constância. Resgata-me dos vícios que me atrofiam as pálpebras e o sexo e me doem nas têmporas. Deixe-me lavar teus pés e teus cabelos, eu te servirei café, ameixas e pão.”

Os versos aos quais ele elevava-a através dos ouvidos eram novos, seguindo a mesma linha daqueles que escrevera nas mãos dela em outro devaneio, mas nas invenções de Joana em sua calúnia de fêmea abandonada, ele sempre surgia com algo novo. Delicadazinha, flutuava por si mesma... Como se fosse uma mulher amada.

Brevemente o anoitecer transformava-se em um Ciclope cujo olho nascera para condená-la: a esposa de Danilo invadia suas magias e pensamentos e o retirava de lá, sem nenhum ódio por Joana, apenas vitoriosa, em posse, como se um corvo dissesse-lhe que sua vida perder-se-ia em angústias porque desejou o que não era seu. Poupando-se, retornava então aos aposentos de sua mente, vencida.

Ele certamente voltaria, Joana não se apressava, até o cinzeiro manteve na sala, junto à fotografia do filho menor de Danilo. Aquelas contas que venciam dia após dia e ela não possuía meios de pagar porque não saía de casa e muito menos obtinha salário, estas contas eles iriam quitar de algum modo quando Danilo entrasse pela porta que fecharia às próprias costas para nunca mais abrir. Penava a espera esgotando as duas garrafas de conhaque da casa, bebidas dele que ficaram lá e que não deveria estar tomando porque quando fumava demais e consumia bebidas selvagens perdia seu cheiro natural de mulher, e também porque tudo estava acabando, até mesmo a comida, e boas doses privar-na-iam do frio quando não houvesse a quem juntar-se no leito... 'Este caldo de amor cuja receita eu herdei de você e preparei muito forte, grosso e fervendo, para te alimentar, ele tinha um ingrediente secreto que tua mãe não te ensinou. Tenho certeza que por esse segredo não desvendado é que as coisas foram perdendo a graça e a partir de então você decidiu ir embora, mas criaremos substâncias novas através dos dias e eles serão só nossos... Até com teus filhos posso me entender. Cozinharei de modo especial quando eles vierem para que nunca se cansem de vir! A mãe deles verá que tudo está melhor assim, se inspirará e conseguirá alguém novo para acompanhá-la, feito da mesma matéria que ela, assim como somos da mesma um do outro, my sweet Dan...'

Ontem mesmo Joana ouviu a campainha tocar inúmeras vezes enquanto lia, totalmente irrecuperável, Orlando, de Virginia Woolf. O protagonista era de forma muito impressionante parecidíssimo com o jeito dele. Ao mesmo tempo em que não atenderia ninguém, ouvia o soar da campainha sem que ela tocasse, sabia do gosto de Danilo pela literatura de Virgínia, e conforme ouvia, corria implacavelmente à porta com uma esperança infundada de que fosse ele. Corria, corria, corria, até nada encontrar... Certas vezes realmente vinham visitas aleatórias. Ele, enfim, não vinha nunca. Começou a correr também à janela a qualquer som vindo da rua, um carro seria um táxi portando ele, um cão latiria para ele, o semáforo fechava-se para que ele atravessasse. Repentinamente a campainha chamou por uma última chance incapaz de ser Danilo, Joana, pelo olho mágico, viu sua mãe atrás da porta com aquela mesma cara de chumbada. Parecia-lhe que a mãe levava vários tiros cada vez que precisava dirigir-se a ela, ou que se injetava um vírus terrível às veias, contudo vinha-lhe, reclamando-a muito de sua conduta.

Joana ultimamente até achava que a mãe estava certa, as pessoas não poderiam, de fato, ir fazendo o que queriam sem se preocupar com ninguém.

Depois que a mãe explicou-lhe tudo sobre como deveria agir dali em diante, implacável como a filha, e fria, minuciosamente paciente, tirou da carteira um pouco de dinheiro "para ela se acertar e tomar um rumo melhor", uma economia para viajar à casa da irmã no final do ano da qual abdicara para "salvá-la". Então disse que não voltaria mais, e não gostaria que a telefonasse nem a procurasse em sua casa. Em menos de dez dias atingiria a maioridade, até o vencimento do contrato, o que levaria um ano, poderia passar o aluguel do apartamento em seu próprio nome ao invés do nome "do outro", com uma duração consciente da quantia teria tempo de arranjar um emprego qualquer, o tio concordou em manter-se como fiador daquela loucura, e 'menina que se mete com homem casado acaba sozinha mesmo'.

- Pensar nisso que você se tornou só me impede de ter tranquilidade para aproveitar cada coisa que planejo.

Fechou a porta e foi embora, deixando-a na mesa de mármore, os braços sobre a pedra gelada, um nó torcendo-lhe o peito e chocando-a contra o silêncio.

Poderia fazer um corte pequeno entre as pernas agora e pintar com a matéria de si as pálpebras com a cor do diabo. Quem tem medo de dizer? Dois pontos: DI-A-BO. Corria para si mesma. Morrer agora. Mãe, sou eu quem morre, era dever seu me fazer feliz nesse instante, pois parto precoce antecedendo a todos e este é meu último momento, então não me exija ser boa como nunca fui, ajeite-me em lençóis de imparcialidade e deixe-me ir em paz. Mas cubra-me antes que venha o frio, também, por favor... Pois é bem verdade que sempre quero teu colo nas piores horas...

Hostilmente, dominada por paixão intensa, espalhou-se novamente por um projeto insensato, e uma última vez quis forjar a voz de Danilo, agarrando-se à utopia de que o corpo dele pesava como um incêndio saboroso sobre ela:

“Sou louco agora. Louco e frutuosamente pecador. Meu pecado me faz transpirar meu sêmen e o que gozei - ENCANTO DELEITE ÊXTASE - pelos poros se cair na terra será regado por teu suor e nascerão flores lilases que não terão espinhos exigentes e não ferirão nossos corações de rouxinóis quando cantarmos.”

Anoitece novamente. O sono dela é azul porque é da cor da doçura que anseia doá-lo. Em meio à madrugada, seu pescoço humilde umedeceu-se de gotas alegres soltas, acordou delirante beijando os lábios de Edith Piaf, eis toda sua redenção por si mesma: criando caminhos solitários em sua força inexperiente; esteve pronta ao amor.

Canta o silêncio noturno e seu peito infla, emudece e morre: ancora-se. Vê a partida, o tão singelo não, sente a aspereza das mãos que vão embora, tão diferentes de como eram quando a receberam. Agora inúmeros cigarros queimam em sua alma, adoece, não de ausência, mas da falta de liberdade de poder esperá-lo. O amor repousa infinito e calmo em braços outros.

Amanheceu.

Decidiu que iria.

No fundo, bem no fundo, pensava que a mãe deveria abrigar um pouco de culpa também, pois não se gera um ser ao mundo à finalidade que ele siga em natureza morta preceitos invioláveis. Só que por tudo isso Joana pensava que também poderia ter sido melhor. É assim que não sente mais gosto na vida. As coisas não se unem, são incoerentes e descompassadas. Se atingisse certamente o orgulho da mãe que a criou sozinha, sem marido e sem poder contar com os avós da criança, seria completamente amargurada, nada do que a genitora lhe quer é capaz de adentrar sua alma. Como se involuntariamente tivesse vomitado cada prato de comida que a mãe lhe deu; nunca querendo ser ingrata. Sendo o que era, sem fingir para ninguém, foi ao que chegou: filha abortada depois de crescida.

'Aos dezessete anos ninguém deve mesmo enganar-se crendo ser possuidor dos oráculos vitais - pensou - mas embora impotente à sabedoria de tudo, parece-me que minha alma já nasceu com cem anos. Cem anos de puro e imenso cansaço. Tudo me pesa tanto em tão grande impiedade, sem o menor esforço para compreender meu mundo, e eu, embora visualize claramente as concepções de algumas pessoas - pois me segue uma constante aprendizagem sangrada mesmo quando somente por intuição -, não tenho o menor interesse em fazer parte desses outros mundos que não são o teu. Porque no teu, Danilo, sou eu, não outra qualquer que me indicaram a ser.

Por isso agora, agorinha mesmo, enquanto você dobra a esquina do seu local de trabalho, estou à sua espera na calçada, atenta e quente, para atirar contra você pelo menos dez vezes, porque se cheguei a mim mesma e não consigo recuar e agora não suporto mais a ausência de vida, a culpa é toda sua'.

Eis que o amor surge.

Ela quis repentinamente concluindo uma coisa inexplicável - porém facilmente reconhecida - sobre a vida, fazer algo de bom pela mãe e por si mesma. Sabia que já não havia tempo. O caminho que criou era somente seu, prisioneira de sua própria obra.

Sobre ela repousou um peso tão imenso quanto o de ir vivendo sob decisões alheias. Cansou-se muito, e como se fechasse e abrisse os olhos, simplesmente, trêmula, em sutil escuridão, sem nenhuma arma e nenhuma coragem, escondeu-se e não matou ninguém.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A confissão do pecador no século XXI

Vendaval, vazio, turbulência. Mesmo unindo ponta a ponta cada uma das coisas existentes ou das coisas criadas e irrefletidas, o tudo jamais resultará naquele algo específico que tanto se sonha em silêncio. Cansa-se muito até que se perceba que ninguém jamais virá e nos salvará e um dos meios de não cravar na garganta a mágoa para que ela não exploda em meio aos outros é não implorar novamente que lhe prestem socorro. Todos os seres de que necessitamos, vindos do inalcansável... Sob matéria sonhosa, bêbada, pesada e triste. Há momentos em que você sente que é preciso morrer agora, sem esperar que nada mais aconteça, torcendo para que adivinhem em qual estado você estava e finalmente se consuma - mesmo que póstuma - a necessidade de compreensão. Morrer agora. É muito perigoso ir adiante e deste ponto não há mais como recuar. Sente-se: já é demais, não existe probabilidade de suportar, daqui ficaríamos estáticos enquanto a dor nos atravessaria fundo fundo fundo fundo em uma linha que não acaba nunca reta e cortante dentro do peito. Até esgotada a alma das dores, ainda existirão outras feridas à espreita, cortes que dilaceram e sugam a gente por inteiro, batendo à porta, sofreguidões famintas e corrosivas, pretejando tudo o que desenvolvemos dentro de nós. É a mesma dor que sente a mulher que nunca teve porque viver e agora vive para ter a certeza de que os filhos ficarão bem, mesmo ela mesma vendo-se pouco a pouco tornada em um zero à esquerda, vendendo o que sobrou das coisas que valem ninharias, a pulseira fina que a filha mais velha ganhou de batizado e o anel faltando uma pedra que ela mesma guardara desde jovem. Àquela dor de quem passa a esperar por um telefonema aos quinze anos e morre aos sessenta, flácido, amargo e inválido, ainda aguardando que tudo se reanime, que faça sair o espírito dessa condição de cego tateando imerso ao escuro, batendo com a ponta dos dedos dos pés em enormes pedras cortantes que se materializam traiçoeiras pelo caminho, a voz por trás do telefone que não toca nunca. Um cansaço mais denso do que a própria decomposição do corpo enterrado após o falecimento, é uma decomposição constante dentro da alma, como se o coração fosse uma úlcera e a alma inteira estivesse enfestada por lepra que a nenhum tempo descobriu-se a cura. É falta de unção, perda absoluta, são dois olhos secos querendo chorar dia após dia sem sequer saber como obter um impulso mínimo fragmentado que lhes dê esse resultado de desabafo. É não saber mais o que e nem como dizer diante de um encontro marcante, como se não houvesse mais sentido nem querer nesse tal dizer. É não ter mais porque pensar na roupa antes de se vestir ou não ajeitar os cabelos por querer ver-se de verdade, despreparado e sem beleza alguma, nem querer intensificar aquele algo tão secreto brotando e jorrando de si mesmo através de um perfume cuidadosamente espalhado pelo queixo e a parte de trás do pescoço, que deveriam ser beijados beijados beijados por imensas madrugadas inteiras, emanando suor e afago, é perder o sentido das pequenas coisas, desaprender a chegar aos prazeres minuciosos aos quais outrora sempre debruçara contemplativa dedicação. Não mais mar das palavras, colocá-las secas como folhas mortas, sem o antecessor fluido incessante que quanto mais se bebe mais se tem sede e prazer na sede de beber. Cair. Explosão. Já jogado ao chão, caindo de novo, de novo, de novo... Sangrando as inflamações da pele raspada no áspero solo do mundo sem ter qualquer reação, olhar vazio, mente em pausa, sabendo em alguma parte que é preciso ouvir qualquer som, raciocinar alguma palavra, ter nojo, ter dor, medo, êxtase de dar um passo que siga somente em frente. Nada disso vem, as coisas vão acontecendo e acontecendo. O crepúsculo é azul como o coração de uma árvore que aprisiona um espírito que geme e chora é azul. A noite é abafada, o corpo sua grossa e excessivamente, pedindo cigarros, cafeína, analgésicos, whisky; a garganta se encole e tem-se uma sensação estranha de que está fisgada, como se bebessemos cloro puro e outros desinfetantes ou produtos tóxicos; os calcanhares duas frutas podres comidas por vermes e dói muito ficar em pé, sustentando-nos sobre duas eternas inflamações agravadas.
Enquanto tudo isso se forma eu ainda espero uma mão invísivel tirar meus cabelos da testa e secar o suor em minha face abatida e enrugada. Pode vir de um pai, alguém por quem eu me apaixone, do Deus, de uma bruxa boa, de uma velha que conte histórias, de um jornaleiro, de uma enfermeira, da cozinheira de um restaurante, da garçonete de uma padaria, de qualquer um dos meus professores, de um escritor morto, de um travesti expulso de casa, de uma criança pobre que ainda não sabe que vai ser morta pela polícia em pleno dia em uma favela qualquer, das pessoas que magoei e que não me perdoaram, das pessoas que me magoaram e que me iludo ao fato de que já esqueci porque me vejo encurralado e sem ninguém, de um santo que abençoe um pão para que eu coma, de qualquer pessoa que me tire esse medo, esse medo extremo de dizer... De dizer o que me vem agora e é quase possível mastigar a frase dentro da boca. Alguém que recupere em mim a capacidade perdida de ter esperanças, ou que pelo menos me mostre por onde seguir para reencontrá-las, mas alguém que se faça entender porque eu já não tenho entendido quase nada. Estou completamente perdido e ainda vejo claramente tudo se movendo ao meu redor sem que me cause nenhum tipo de sensação. Então recupero a consciência e dentro de mim ouço um choro do qual preciso chorar, esse meu choro que exteriormente não acontece nunca.

domingo, 9 de setembro de 2012

O julgamento e o peso da legalidade de uma hipótese.

Eu preferia ter estudado e ido bem nas avaliações - provas de meu interesse, na visão dos professores -, garantindo meu crédito àqueles que têm a chave das portas certas para que eu possa seguir a trajetória que sempre sonhei. Sonhei ou aprendi a sonhar? Já não sei, sob esse mercado de capital, eu tão introspectivo, tão inquieto, tão necessariamente solitário e triste. Verdadeiramente me cansei. Com todo o meu phisy, ou o que quer que seja a composição da matéria profunda de nós mesmos. Passo meu tempo imaginando cenas absurdas, imaginando que sou um rei de qualquer coisa, que meu corpo não está mais entupido de maconha, que eu não preciso daquele tão singelo álcool para saber me colocar. Meu êxtase profundo de chegar um pouquinho perto de mim, e sentir bem apertado o coração sendo fisgado pelo anzol da vida comendo a vida. Agora querendo bater as cinzas dos cigarros que eu perdi a coragem de fumar. No começo desse ano, larguei minha matrícula em uma excelente faculdade porque preferi ficar com minha banda iniciante de rock, ou de rock iniciante. Foi exatamente o que fiz e queria ter feito, e gostaria de estar fazendo agora. Largar tudo, cair na estrada e entender meu caminho, na maior solidão. Minha banda era a coisa mais excitante que já me ocorrera. Eu queria comer a Cherie Currie. Queria beijar o olho cego do Bowie. Desisti de minha carreira acadêmica por uma única razão: desejo. Quis insuportavelmente sexo, violência e rebeldia. Contra tudo e contra o nada. Porque somos filhos sem pai. Porque sou parte de um grupo de veados apontados na rua. Sou amigo de putas apontadas na rua. Não temos a menor chance com essa sociedade, não há o que façamos para que isso mude. Sei que nesse mundo a vida que gostaria de levar seria bem diferente da que levo. Diferente, e impossível. Eu não tenho inteligência emocional para isso, perdoem-me. Agora que minha banda se afundou, que nada deu certo porque cada ordinário que eu tanto amei quis uma coisa diferente, estou em outra faculdade, em outro trabalho, seguindo o que é sensato. Estou completamente destruído, e, no entanto agora tenho onde me posicionar na sociedade e no mundo. Tenho prazeres mais puros, como conversas com pessoas de alma boa, em sorveterias e praças, sem drogas, sem riscos, sem a revolta burra da juventude. No entanto, essa paz não me alimenta tão bem. Talvez eu seja regido pelo inferno. Nem transar eu consigo porque aquele tempo inteiro de promiscuidade me traumatizou. Pode ser que por um milagre eu impressione o corpo docente através de minha ótica pessoal. A exatidão das ciências é o que nos faz sentir que fracassaremos. Quero humanidade, inconstância. Posso ser de fato um vagabundo como já ouvi, mesmo pagando minhas contas e garantindo o meu sustento antes mesmo de atingir a maioridade. Quero é ir para o rock, para os tablados encenar, contudo não vou, não quero mais, não posso. Nesse momento em que falo, sei plenamente que morri. Morri para mim mesmo, nunca mais quero saber de mim. Pego todo o meu pecado e vou ao encontro de uma porta, pronto a espancá-la até minhas mãos sangrarem, chorando, chorando muito, gritando, gago, sem espaço dentro de mim mesmo. Até que a porta não abra. Até que a porta não abra. Até que a porta não abra. Até que eu perceba que a culpa é minha e fracassei, e peça como quem pede uma esmola um pouco de amor para que isso me conforte. Em vista de não me atirar de um precipício, da altura de um enorme prédio, de não cortar os pulsos e ver o licor escarlate escorrer, de não criar meu romance de guerra, de não querer a forca, o gás do fogão, a carona até outro lugar onde eu possa me acabar aos poucos, o susto, o desespero, o abandono, a cara de insatisfeito, a sensação de incompetência, o imprudente direito de sonhar. Em tudo isso eu me descontrolei. Por isso terminei por procurar esse recanto, que vejo como uma quase clínica de alienação, que chamo de colocação no mundo e na vida, dentro de uma família - o que temos por aceitação. Toda vez que me reúno com meus amigos, àqueles que fariam algo pelo mundo assim como eu, os sensíveis, artistas, incansáveis, todos revelamos uma mesma intimidade ao outro: somos os natos perdedores desse planeta, somos estrangeiros na Terra, e o mundo nos rejeita como qualquer corpo repele um organismo estranho.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Despedida à Luz – um último abraço mais esclarecido e cru: uma gota do grande encontro.

Eu preciso escrever algo a você. Preciso por necessidade, não apenas pra cumprir uma promessa.
Preciso te escrever porque estou com nojo de mim e escrever é como um grito abafado de socorro. Contudo a salvação incontestavelmente inalcançável. Salvação é em fim amor, grão puro que apenas gera, sem fazer adoecer as raízes à sua volta. O amor apenas espera enquanto nós o esperamos. É a busca eterna que semeia vida, move, contorce, repele: causa. Ninguém está parado quando busca o amor. É uma coisa sozinha, isolada, entronizada em seu posto intocável. E eu sei que existe. Assim como sei também que não virá.
Já não sei se quero ser feliz. Não sei o que é a felicidade, o bem ou o mal. Eu seria a mim mesmo o ser mais complicado que já conheci, se eu pudesse considerar que me conheço. E quero apenas a preciosidade de ser o que sou: um ser. Meu vício é necessariamente o que sou: ser. Embora eu não tenha composição.
Preciso de um instinto mais profundo, e sei: esse pode ser destrutivo, corroer da superfície até as entranhas. Pode não ser bom e nem aparentar piedade. Por mim ou pelo próximo, piedade eu já não tenho; até mesmo pra me cansar de feridas injustas estou fraco: o cansaço estala em mim.
A vida é como uma bactéria devorando tudo o que se cria. Até mesmo a verdade que de tão mutável se esvai.

A vida é na verdade morte. De um mundo todo que morre aos poucos. Uma matéria que enegrece tudo, borbulha em punhaladas. E não importa o quão bela acreditamos que nossa alma seja, por tradição cristã ou social, ela é apenas breve: seca e morre. Pode não morrer. Talvez a alma seja um grito agudo que se mantém triunfante. Ou se decompõe e apodrece segundo após segundo, dividida em prazeres e dores e mistérios que dançam por entre os milímetros do segredo de todo um dia. Morta durante a vida e viva durante a morte. Só após nosso silêncio o mundo busca nos compreender. Somos secretos, temos tanto medo, recuamos perante a entrega. Quero que alguém doa em mim pra que eu mesmo me tenha um pouco menos de espaço à dor individual. Individual é necessariamente um gemido de solidão que eu temo, mas busco, por não saber mais confiar.
Silencioso, prevejo um público que não me possa alcançar. Vidas que me observem e enxerguem apenas o que eu quero mostrar. Mostrarei apenas mentiras, me exibir não vale a pena. Mas caio em armadilhas que crio a mim mesmo, porque acredito que em algumas formas de vida está a felicidade. E quem sabe esteja, mas não - nem todas as vidas cabem em mim. Algumas não são contaminadas pela doença de viver. Se na inflamação eu amo, sou o habitat perfeito a qualquer vírus ou célula mortificante. Tudo em mim é uma fome secreta. Não suporto descansar, talvez por isso eu esteja desde sempre tão cansado. Quero me consumir. Quero que a palavra – estratégia de segredo inviolável - não seja minha única maneira de existir como tem sido. Não tenho tamanho poder sobre a palavra como essa tem sobre mim, está sempre mais viva que eu.
Quero acreditar na pureza de um Campo de Centeio. Mas eu a quero aqui, neste terreno onde pisamos. Não a quero no infinito, pois o nunca é infinito. E a felicidade é também nunca. O êxtase que se desenha eterno apenas em um instante abraçado por nós. Precisamos ainda aceitar os instantes como parte indispensável disso tudo que não sabemos o que é.
Que eu tenha coragem de admitir a mim mesmo do que é que estou desesperado pra fugir, e meu amor não seja construído através de uma fuga. Que meus olhos se percam, o olhar perdido é apenas confuso e transbordante em inocente pureza. Não possui maldade ou insatisfação. Apenas não entende e nem sabe o que é aceitar ou não.
Quando pequeno também estudei em uma dessas escolas em que o uniforme carrega um sol infantil e sorridente. E isso foi também doce a mim como é a quem passa por um lugar como esse. Havia um pequeno parquinho com areia, os brinquedos, o guache, a massinha, o temido quartinho escuro e o primeiro amor através da primeira professora.
Havia também outras crianças. Não me entristece mais saber que muitos são hoje adultos que desconheço. Já não sei o que me entristece. Nem como parar de escrever sobre algo. O que sei é que nunca soube dessas coisas, e. Vem-me.
Lembro-me de um garoto que era mais alto, mais pesado, e mais puro que todos os outros. Talvez por isso pesasse tanto. Pesava como pesa a caridade. Nós todos nos alegrávamos em brincar com ele, cada um com sua dose de malícia leve guardada em uma parte oculta, rodopiando ao redor de um amigo bondoso. E esse amigo se foi. Apenas pra outra escola. Foi. E um dia sua mãe foi até nossa escola nos agradecer por tê-lo tratado com alegria e delicadeza. Ele agora sofria maus tratos por ser diferentemente menos pecador. Foi uma das primeiras vezes em que senti que eu precisaria ser bom, precisaria me esforçar e aprender. Ao sexto ano de minha vida descobri que há um fio condutor de amor, seja o amor fatalmente uma invenção pra que nos acalmemos ou não, há conduzido através do ser uma coisa que é o que faz com que o outro doa um pouco menos.
Hoje tento libertar pessoas de uma sensação na qual me viciei, minha dor me leva até um ápice de mim mesmo, me deslumbro em um dia talvez me alcançar por um único instante minúsculo que seja.
Aos seis anos eu descobri que em alguns seres havia uma bondade maior. E aos doze que isso faz com que eles se percam, pois não sabem encontrar o necessário em si mesmos: a maldade. Nossa selva racional nos faz precisar engalfinhar o inimigo e comer seu abdome com os dentes, sentir o gosto de seu sangue e assisti-lo agonizar, entretanto, sem que ele chegue a morrer. É preciso que ele se lembre de nosso poder e o conte às suas próximas gerações. (Queremos ser poderosos. A única forma de exercer poder que alcançamos é a batalha.) Há também a criação. Mas nos envergonhamos daquela que é feita por nós e admiramos a do próximo, não nos sentindo assim poderosos.
Aos meus doze anos, dois irmãos da mesma idade, mesma estatura. Estatura essa superior em brutalidade a dos demais alunos. Agrediram um de cada vez o mesmo olho do aluno puro de qual lhe falei, e o sangue passou a escorrer desse seu olho como se fossem lágrimas, mas era um ferimento. Nada disso aconteceu por vingança, foi apenas a mão poderosa do destino.
Em sua pureza ele buscava ao redor algo onde se apoiar e não havia nada. Não havia em mim nada a oferecê-lo, assim como nos outros ao redor. Ele se perdeu, pois não conhecia em si mesmo a razão pela qual um alguém agride outro alguém.
Gostaria que meu olhar se perdesse. E meu interior se perdesse muito mais e com mais intensidade e frequência. Eu honestamente preferiria não saber: não sei viver sem sentir, e sentir e saber ao mesmo tempo é auto-destrutivo.
Então eu me cerco com leões e tento me safar sorrindo. Apenas sentir. Apenas solidão “inopcional”.

Não gostaria de te pedir desculpas por não te escrever algo bonito e convincente. Gostaria que levasse de mim a verdade. Não a sua, pois essa você tem em si mesma e sei que se quiser é capaz de encontrar. Gostaria que levasse contigo a minha verdade. Que a única certeza que tivesse é que hoje eu te entrego uma verdade, e em outra ocasião lhe entregarei mais verdades se assim me permitir. E cada verdade será o avesso da anterior.

Eu me peço paciência. Eu me peço amor na canalização certa. Eu me peço descobrir.
Que seus mistérios se dissolvam e escorram em verdade. Que venham novos mistérios. E mistérios hão de vir. Sempre. Que você olhe pra ser corpo nu e encontre a sensualidade aguda de uma mulher. Que eu olhe pros meus olhos e encontre a capacidade de ser criador ou pai. Que seu coração seja de centeio e o meu de erva doce. E que às vezes nossa vida tenha uma ousadia estranha de canela.

A realidade de que te falei agora, é a de alguém que foi ferido e não sabe onde nem por quem. Estou ausente ao que vivo. E pra tentar me entender e quem sabe te fazer entender, citei um fato de um garoto agredido. Eu te peço socorro. Se um dia me responder, me mostre sua realidade. Que ela seja mais doce o quanto possível, exemplifique-a com uma boa ocorrência. Não sei quantos registros de coisas celestes você tem sobre si mesma. Então te rogo que arranje alguns. Venho me permitindo, como uma exigência, que eu seja capaz de acreditar na felicidade e no amor. Mesmo que eles demorem a vir. Já afirmei a mim mesmo que o amor nunca viria, e eu não estava mentindo. Mas minha próxima verdade será outra. Eu me direi que veio, fez da solidão apenas um exercício de meditação, e, não o asco perante a ansiedade que o mundo tem em ferir. Direi a mim que o amor veio, e como terei alterado minha verdade, novamente não estarei mentindo.
Se quiser amor, seja em você o amor. Mas se quiser outra coisa, analise bem sua escolha pra que não cometa um assassinato contra si mesma. Faça com que venha. E nos acalentemos depois, por favor.
Eu te agradeço por estar entrando em um avião em poucos dias pra seguir um novo curso. Não porque acredito que será melhor assim: eu realmente não posso saber e vos informar. Mas sei que encontrarás alguma verdade pura, e alguma dose quererá absorver.

Eu lhe pergunto: quer viver?

(Esse texto é dedicado à Larissa Luz, que decidiu voar).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Estou tentando quase não falar, e: aconselhe-te, aconselho-me, ao mesmo.

Que eu me encaixe no silêncio. Que eu grite até o nunca – pois a felicidade é o nunca. Que o amor tenha mais fome de mim do que eu dele. Que eu não saiba ganhar somente pedindo. Que eu tenha a coragem de não ser bom. Que eu grite todo o meu ódio. E exponha minha inveja como uma obra de arte. Que eu até mesmo mate através dos outros: mais do que venho matando através de mim mesmo.
Que eu não viva a mentira dos outros. Não finja que gosto como as pessoas fingem gostar, não finja acreditar no gosto como elas fingem acreditar.
Eu estou cansado, desacreditado, e sem esperança pra uma vida com sabor. As promessas que preguei estão sendo humilhadas pelo tempo, enquanto à minha volta tudo se move imóvel. Uma grande órbita viciosa, sem alteração nenhuma na composição dos seres que dançam uma alegria artificial.
Que o mundo me peça qualquer coisa que não seja não viver, ou que eu mesmo me peça outra coisa. Preciso de muita coragem para sair do mar calado onde deslizo à superfície, antes que meu corpo finalmente se afunde e encontre o nada que: pode ser salvação e sem fim.
Que eu saiba conviver com a decepção, sem querer encobri-la para me poupar de mais uma.
Que meus dedos passem a tocar o que é sólido por onde eu tocava coisas inexistentes e sem a menor probabilidade de surgimento.
Que meu coração se encha da paz que vem Daquele que fez a Terra e o sistema solar.
Que eu tenha a lembrança de uma cantiga da infância, e que ela me agrade mesmo que as outras crianças da roda sejam hoje adultos que eu já não conheço.
Que meu peito se infle de gratidão pelo pão que eu como enquanto poderia estar em meio ao lixo caçando o que um abutre come.
Que a gentileza me ensine pra que eu não precise aprender através do sofrimento.
Que eu saiba aceitar que estou só, e perante a mim, contemple um universo capaz de existir sozinho, e minha alma agradeça a graça de conhecer os dois seres que me geraram, assim como geraram meus irmãos, que geraremos seres ou sensações. Mesmo que todos nós sejamos infelizes através do fio que conduz isso tudo.
Que eu aproveite o mundo com o meu poder que vem da morte, e através do silêncio eu refaça minha alma dor após dor, encontrando o êxtase de aceitar, e através dele ser o que a felicidade é.
Que eu mostre aos outros que meu Criador não exige de mim bondade, nem mesmo pureza ou a perfeição. E que: meu maior exigente sou eu. Me condeno por pecar sem saber que o pecado é nada mais que, uma criação que garante a igualdade de pensamentos. Porque tivemos medo de saber quem nós somos e escolher o que queremos.
Que a verdade me sorria e eu aceite a cortesia, mesmo que todos os seus dentes estejam inteiramente cariados.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Descosturando à Taxidermia diante de Paula, os pontos quem desfez fomos nós, as linhas quem arrebenta somos nós.

Ok. Vamos ver se consigo um trabalho finalizado hoje. Na última vez que tentei redigir esse texto, desci pra receber uns amigos, e devolver um celular que havia sido esquecido em minha casa dois dias antes, e quando voltei o computador autonomamente havia sido reiniciado. Além disso, não sei até que horas posso me corroer aqui nesta cadeira, amanhã pela manhã terei de estudar, à tarde e à noite trabalhar. É. Sabe Tia, estou matematicamente, a partir de então, evitando chamá-la assim. Parece que o modo carinhoso vem querendo me lembrar algo como envelhecer. Pois então preferirei Papoula. Apesar de germinar o ópio, uma flor é sempre flor. E precisamos do ópio também.
Não sei se poderei deixar esse texto dormir. Chego à conclusão de que é sempre bom. Mas a necessidade de uma nova produção reclamará quando nos encontrarmos novamente, eu sei. Quero te dizer que precisamos de um pouco mais de alegria. Antes que nossos rostos demonstrem o que nossa alma está se incomodando em aceitar, foi decisão mental e não de essência: nós envelhecemos. Precisamos reavivar a coisa, colocá-la nos eixos. Só restamos nós. E nem quero escrever me preocupando com a poesia de cada fragmento. Porque a coisa está perdida. Assim, a poesia se perdeu também. É, a coisa se perdeu de vez. E a corporação não quer pessoas como nós.
Um dia desses, era um domingo e eu havia trabalhado mesmo assim, depois viajei pra ensaiar, enquanto aguardava meu diretor, em frente a uma padaria, vi sentado sobre o degrau ao meu lado um rapaz que comia algo como uma esfirra. Logo depois dobrou a esquina uma garota, que não posso supor a idade, mas atrevo-me a arriscar a idéia de que a flor que a descobre como mulher, com ovário, amor e seios, já tenha lhe nascido como uma pequena correnteza de vida que escorre, pétalas vermelhas deslizando pela virilha. Ela se vestia com tons claros, como rosa bebê e branco, roupas de segunda ou terceira mão. O rapaz imparcialmente à vida que lhe rodeava comia, quando nós dois ouvimos a garota dizer:
- Me dá um pedacinho, moço?
Eu virei pra ver como reagiria, ele assentiu com a cabeça e continuou a mastigar, não pareceu que aquilo não lhe era algo comum. Ela abaixou e delicadamente mordeu quase sem fome, com as mãos levantadas como seriam as de uma majestade jovem. Voltou o corpo à ereção, e proferiu um “valeu” ao homem, que novamente assentiu sem nenhum contato com algum mundo que não fosse o dele. Ela passou pela minha frente e se posicionou em pé ao meu lado. Senti seu olhar, como se me seduzisse a inevitavelmente retribuí-lo, quando a encarei, deparei o pior olhar que jamais supus receber. Ela exigia algo de mim também, e não era um pedaço de esfirra. Não resolveria comprar-lhe tudo o que havia na padaria, ela queria comer eu. Minhas entranhas, com a coragem, a fé no Criador, a paixão pela vida, os instantes completos, os desejos, os segredos, ou o que eu ainda possuísse em mim. Cada vez que a olhava e virava o rosto, tornava a olhar, aos poucos o rosto da menina se desfigurava, o nariz se movia, como se sua face fosse de água e lhe caísse gotas pesadas e agudas, irônicas, rindo da falta de sabedoria dos semelhantes de sua espécie. Senti sua afronta, uma raiva originária da ignorância que me consumia e me fazia crer na estrutura que eu criava e nas teorias que pregava. Inquieto eu evitava seus olhos, que me fitavam com inocência, aquela jovem feita em criança era o pior inimigo que um homem pode ter: o animal rastejante, que só no fundo do olhar expõe sua verdadeira intenção. Então se movimenta elegante, te enlouquece a desvendá-la, obrigando-o a mergulhar fundo em seus olhos silenciosos e absorver o veneno que lhe preparara.
Não, ela não queria que saciasse sua fome, era algo infinitamente maior, queria aumentá-la e causar igual sensação em mim. Eu não deveria nunca a ela um pedaço de pão, mas a cada refeição que eu fizesse meu estômago deveria se retorcer castigado pelo pecado de não me lembrar que há pessoas que mesmo tendo um teto sentem fome, e há pessoas que não tendo uma casa onde se esconder, sentem além da fome o frio. E as que têm um lar têm também a humilhação de pedir, pois as esmolas somente são espontâneas aos moradores de rua. Mais do que suprir o corpo, o mundo tem fome da consciência do outro por si.
Estamos diante do grande espelho, aquele espelho que nós dois refletimos sobre a criação. A inversão é insuportável porque precisamos fugir, não queremos abraçar nosso oposto. E somos animais, os benditos animais que pensam. No entanto somos casca, e o contrário de nós mesmos pra nos adequarmos, pelo medo de falhar, de deixar a vida nos vencer e dizer: eu avisei o quanto sou insuportável, e você quis pintar suas figuras e brincar comigo, mas eu te cerquei com leões.

A cena diante da padaria, só a você pensei em contar. Lembro-me que te enviei um torpedo sobre outra coisa, mas porque sabia que poderíamos talvez entender melhor aquele mundo. O que temos feito da vida é fazer a vida em si. Não vamos nos empalhar e guardar nosso presente ao tempo futuro, somos mutáveis, adaptáveis, amáveis duentis e amantes. Insisto que devemos mesmo apostar na felicidade, pois o tudo mais está acabado, e não sabemos quanto tempo há até ela esgotar-se. “E, no entanto é preciso cantar, é preciso cantar e alegrar a cidade. (...) Porque são tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz, tanto amor para amar de que a gente nem sabe”. Vinícius em nossa música brasileira já diz, e nós só estamos querendo descobrir. Porque temos medo do espelho, é que talvez nosso maior desejo seja o de nos virar do avesso, e ver no espelho exatamente o oposto do que somos, e gritar: “Vejam quantas porcarias eu sou capaz de fazer aos seus olhos! Mas isso... Isso... Isso é minha vida! Vou enlouquecer antes que o sol se ponha, queiram vocês ou não.”. E ser submergido pelo amor que temos pela arte em que nos desposamos se é que a conhecemos, nós buscaríamos nos entregar a ela de corpo inteiro ao invés de fugir do nosso extremo contrário exibido pelo espelho.
E deixar o mundo aqui, como está. Porque uma única pessoa pode ser todo um universo pra outra. Assim como sei que o Viktor é seu universo agora, onde algumas estrelas tentam reluzirem inconvenientes e impróprias, mas passarão como cadentes ou cometas.
Houve há pouco, no Rio de Janeiro, um homem que apagou doze universos nascidos há tão pouco tempo considerando a imensidão da vida, e em seguida apagou seu próprio universo. Não consigo crer que ele possuía asco pela vida. Organicamente, constantemente eu apenas não sinto, não sei, não vivo nada sobre isso. Porque já não tenho alma pra adoecer e entender. Mas sei que essa dor virá, virá e me obrigará a deixá-la dançar por eu todo até que eu a vomite. Contudo tua mão estará aqui pra quando eu precisar de poros pra umedecer, secando meu rosto, afagando a ferida viva que pulsa cheia de anormalidade em mim.