Ok. Vamos ver se consigo um trabalho finalizado hoje. Na última vez que tentei redigir esse texto, desci pra receber uns amigos, e devolver um celular que havia sido esquecido em minha casa dois dias antes, e quando voltei o computador autonomamente havia sido reiniciado. Além disso, não sei até que horas posso me corroer aqui nesta cadeira, amanhã pela manhã terei de estudar, à tarde e à noite trabalhar. É. Sabe Tia, estou matematicamente, a partir de então, evitando chamá-la assim. Parece que o modo carinhoso vem querendo me lembrar algo como envelhecer. Pois então preferirei Papoula. Apesar de germinar o ópio, uma flor é sempre flor. E precisamos do ópio também.
Não sei se poderei deixar esse texto dormir. Chego à conclusão de que é sempre bom. Mas a necessidade de uma nova produção reclamará quando nos encontrarmos novamente, eu sei. Quero te dizer que precisamos de um pouco mais de alegria. Antes que nossos rostos demonstrem o que nossa alma está se incomodando em aceitar, foi decisão mental e não de essência: nós envelhecemos. Precisamos reavivar a coisa, colocá-la nos eixos. Só restamos nós. E nem quero escrever me preocupando com a poesia de cada fragmento. Porque a coisa está perdida. Assim, a poesia se perdeu também. É, a coisa se perdeu de vez. E a corporação não quer pessoas como nós.
Um dia desses, era um domingo e eu havia trabalhado mesmo assim, depois viajei pra ensaiar, enquanto aguardava meu diretor, em frente a uma padaria, vi sentado sobre o degrau ao meu lado um rapaz que comia algo como uma esfirra. Logo depois dobrou a esquina uma garota, que não posso supor a idade, mas atrevo-me a arriscar a idéia de que a flor que a descobre como mulher, com ovário, amor e seios, já tenha lhe nascido como uma pequena correnteza de vida que escorre, pétalas vermelhas deslizando pela virilha. Ela se vestia com tons claros, como rosa bebê e branco, roupas de segunda ou terceira mão. O rapaz imparcialmente à vida que lhe rodeava comia, quando nós dois ouvimos a garota dizer:
- Me dá um pedacinho, moço?
Eu virei pra ver como reagiria, ele assentiu com a cabeça e continuou a mastigar, não pareceu que aquilo não lhe era algo comum. Ela abaixou e delicadamente mordeu quase sem fome, com as mãos levantadas como seriam as de uma majestade jovem. Voltou o corpo à ereção, e proferiu um “valeu” ao homem, que novamente assentiu sem nenhum contato com algum mundo que não fosse o dele. Ela passou pela minha frente e se posicionou em pé ao meu lado. Senti seu olhar, como se me seduzisse a inevitavelmente retribuí-lo, quando a encarei, deparei o pior olhar que jamais supus receber. Ela exigia algo de mim também, e não era um pedaço de esfirra. Não resolveria comprar-lhe tudo o que havia na padaria, ela queria comer eu. Minhas entranhas, com a coragem, a fé no Criador, a paixão pela vida, os instantes completos, os desejos, os segredos, ou o que eu ainda possuísse em mim. Cada vez que a olhava e virava o rosto, tornava a olhar, aos poucos o rosto da menina se desfigurava, o nariz se movia, como se sua face fosse de água e lhe caísse gotas pesadas e agudas, irônicas, rindo da falta de sabedoria dos semelhantes de sua espécie. Senti sua afronta, uma raiva originária da ignorância que me consumia e me fazia crer na estrutura que eu criava e nas teorias que pregava. Inquieto eu evitava seus olhos, que me fitavam com inocência, aquela jovem feita em criança era o pior inimigo que um homem pode ter: o animal rastejante, que só no fundo do olhar expõe sua verdadeira intenção. Então se movimenta elegante, te enlouquece a desvendá-la, obrigando-o a mergulhar fundo em seus olhos silenciosos e absorver o veneno que lhe preparara.
Não, ela não queria que saciasse sua fome, era algo infinitamente maior, queria aumentá-la e causar igual sensação em mim. Eu não deveria nunca a ela um pedaço de pão, mas a cada refeição que eu fizesse meu estômago deveria se retorcer castigado pelo pecado de não me lembrar que há pessoas que mesmo tendo um teto sentem fome, e há pessoas que não tendo uma casa onde se esconder, sentem além da fome o frio. E as que têm um lar têm também a humilhação de pedir, pois as esmolas somente são espontâneas aos moradores de rua. Mais do que suprir o corpo, o mundo tem fome da consciência do outro por si.
Estamos diante do grande espelho, aquele espelho que nós dois refletimos sobre a criação. A inversão é insuportável porque precisamos fugir, não queremos abraçar nosso oposto. E somos animais, os benditos animais que pensam. No entanto somos casca, e o contrário de nós mesmos pra nos adequarmos, pelo medo de falhar, de deixar a vida nos vencer e dizer: eu avisei o quanto sou insuportável, e você quis pintar suas figuras e brincar comigo, mas eu te cerquei com leões.
A cena diante da padaria, só a você pensei em contar. Lembro-me que te enviei um torpedo sobre outra coisa, mas porque sabia que poderíamos talvez entender melhor aquele mundo. O que temos feito da vida é fazer a vida em si. Não vamos nos empalhar e guardar nosso presente ao tempo futuro, somos mutáveis, adaptáveis, amáveis duentis e amantes. Insisto que devemos mesmo apostar na felicidade, pois o tudo mais está acabado, e não sabemos quanto tempo há até ela esgotar-se. “E, no entanto é preciso cantar, é preciso cantar e alegrar a cidade. (...) Porque são tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz, tanto amor para amar de que a gente nem sabe”. Vinícius em nossa música brasileira já diz, e nós só estamos querendo descobrir. Porque temos medo do espelho, é que talvez nosso maior desejo seja o de nos virar do avesso, e ver no espelho exatamente o oposto do que somos, e gritar: “Vejam quantas porcarias eu sou capaz de fazer aos seus olhos! Mas isso... Isso... Isso é minha vida! Vou enlouquecer antes que o sol se ponha, queiram vocês ou não.”. E ser submergido pelo amor que temos pela arte em que nos desposamos se é que a conhecemos, nós buscaríamos nos entregar a ela de corpo inteiro ao invés de fugir do nosso extremo contrário exibido pelo espelho.
E deixar o mundo aqui, como está. Porque uma única pessoa pode ser todo um universo pra outra. Assim como sei que o Viktor é seu universo agora, onde algumas estrelas tentam reluzirem inconvenientes e impróprias, mas passarão como cadentes ou cometas.
Houve há pouco, no Rio de Janeiro, um homem que apagou doze universos nascidos há tão pouco tempo considerando a imensidão da vida, e em seguida apagou seu próprio universo. Não consigo crer que ele possuía asco pela vida. Organicamente, constantemente eu apenas não sinto, não sei, não vivo nada sobre isso. Porque já não tenho alma pra adoecer e entender. Mas sei que essa dor virá, virá e me obrigará a deixá-la dançar por eu todo até que eu a vomite. Contudo tua mão estará aqui pra quando eu precisar de poros pra umedecer, secando meu rosto, afagando a ferida viva que pulsa cheia de anormalidade em mim.
Pois eu também tenho a fome. Aquela que não chamamos fome, mas sabemos o quanto é.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
A inutilidade ofertada.
Aguardo ansioso, quase transpirando, mais esse próximo anoitecer. Procuro adivinhar às condições da Lua como se elas possuíssem a estranha magia de te dizer onde estarei. Fantasio minhas maiores loucuras. Desejo intensamente, irritantemente, com meu desespero de animal apaixonado, vestir uma camisa nova, intensificar o que quer que me domine neste momento com um perfume de título secreto e de fragrância subjetiva e real, como suaves glóbulos soltos e acumulados sultimente em vida, pequenos mistérios a serem germinados. Comprarei o melhor vinho que puder, e apanharei um punhado de rosas de pétalas escarlates, talvez escurecê-las negras com alguma técnica que ainda precisarei desenvolver. E caminhar sozinho, até te encontrar por acaso. Ajoelhar-me a teus pés e beijar suas mãos enquanto meu corpo ofegante nada contra uma corrente de não, corta o tempo e se mantém. Depois te tomo nos braços e acolho sua cabecinha cansada recostada em meu peito e te dou toda tranquilidade que um homem deve dar à mulher. Porque estou perdido por você.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Um lado do escuro é de luz.
Repentinamente um pequeno surto me enrijeceu.
Um anjo fora-se a um novo céu, sublimemente mais coroado que seu último paraíso. Conheceria novas florestas escuras, campos de paz, frutos doces e azedos, novos símbolos etéreos e uma sedução doce à mulher que brotará nela.
Foi-se como um eclipse que surge e morre a nós, certamente nascendo a olhos novos.
Fecho os meus - embora mais o corpo desfaleça por sentir sua falta - o ar é invadido por uma felicidade explosiva (radiação) que vem de uma parte oculta do que vivemos, dizendo-me que é como é.
As asas atentas do anjo acolher-me-ão quentes, na noite exata em que meu outono estiver com a natureza irreversivelmente em sépia. As sensações de tão puras poderiam ser fotografadas.
Sei o quanto as coisas nunca se retomarão, e o que fora outrora já não fará a delicadeza piedosa de reviver. Em algum instante tudo morrerá. Mas mesmo que seco, meu espaçamento sem tempo ao lado deste anjo sempre será como um trevo de quatro folhas eternizado entre às paginas de um livro que jamais autorizo que outros tenham contato. É somente nosso e assim se manterá.
Ela ri, vadia pelas ruas, faz seus trabalhos secretos de fada, germina as sementes que possui. Vive os sonhos que viver lhe fez escolher viver, não os outros, mas os que são alinhadamente dela, encaixando-a mim e outros que receberão seu encantamento: uma flor no coração.
Antes que a ilusão viesse, em todo espaço estarás aqui. Nossas estações serão ainda mais desvendadas, nossos encontros mais amorosos e repletos de uma imensa saudade. Saudade esta que só quem tem o mesmo sangue correndo na alma pode ter.
E porque queremos, o eterno há de vir.
Um anjo fora-se a um novo céu, sublimemente mais coroado que seu último paraíso. Conheceria novas florestas escuras, campos de paz, frutos doces e azedos, novos símbolos etéreos e uma sedução doce à mulher que brotará nela.
Foi-se como um eclipse que surge e morre a nós, certamente nascendo a olhos novos.
Fecho os meus - embora mais o corpo desfaleça por sentir sua falta - o ar é invadido por uma felicidade explosiva (radiação) que vem de uma parte oculta do que vivemos, dizendo-me que é como é.
As asas atentas do anjo acolher-me-ão quentes, na noite exata em que meu outono estiver com a natureza irreversivelmente em sépia. As sensações de tão puras poderiam ser fotografadas.
Sei o quanto as coisas nunca se retomarão, e o que fora outrora já não fará a delicadeza piedosa de reviver. Em algum instante tudo morrerá. Mas mesmo que seco, meu espaçamento sem tempo ao lado deste anjo sempre será como um trevo de quatro folhas eternizado entre às paginas de um livro que jamais autorizo que outros tenham contato. É somente nosso e assim se manterá.
Ela ri, vadia pelas ruas, faz seus trabalhos secretos de fada, germina as sementes que possui. Vive os sonhos que viver lhe fez escolher viver, não os outros, mas os que são alinhadamente dela, encaixando-a mim e outros que receberão seu encantamento: uma flor no coração.
Antes que a ilusão viesse, em todo espaço estarás aqui. Nossas estações serão ainda mais desvendadas, nossos encontros mais amorosos e repletos de uma imensa saudade. Saudade esta que só quem tem o mesmo sangue correndo na alma pode ter.
E porque queremos, o eterno há de vir.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Odisseia instrospectiva.
Enquanto o vento me toca na densidade intumescida da noite eu revelo o horror de meus segredos.
Melhor a rejeição declarada a um desamor quieto, saudade escorrendo, enfeitada a um presente.
Em noites exclusivas à fúria tranco-me em banheiros imundos nos fundos dos depósitos por onde passo junto a meus amigos dados às rebeliões e antes que a garrafa caia de minha mão trêmula e bêbada eu choro como se teu nome me fosse uma obrigação ouvida no peito.
Nem mais me adianta lamber outras bocas, teu cheiro quente, hálito de fome em manhã de chuva, quando nos encontrávamos proibidamente, escondido de quem te desposara em um lar aquecido e talvez correto julgando o século, não me liberta as narinas - apesar de tua ausência pesada.
Lembro-me em pecado sobre seu nome biblicamente usado e em mim perdido como vida entregue às ruas onde se diz o que não pode ser dito, se consome o que estraga a saúde.
Melhor a rejeição declarada a um desamor quieto, saudade escorrendo, enfeitada a um presente.
Em noites exclusivas à fúria tranco-me em banheiros imundos nos fundos dos depósitos por onde passo junto a meus amigos dados às rebeliões e antes que a garrafa caia de minha mão trêmula e bêbada eu choro como se teu nome me fosse uma obrigação ouvida no peito.
Nem mais me adianta lamber outras bocas, teu cheiro quente, hálito de fome em manhã de chuva, quando nos encontrávamos proibidamente, escondido de quem te desposara em um lar aquecido e talvez correto julgando o século, não me liberta as narinas - apesar de tua ausência pesada.
Lembro-me em pecado sobre seu nome biblicamente usado e em mim perdido como vida entregue às ruas onde se diz o que não pode ser dito, se consome o que estraga a saúde.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Sinestesia do oposto.
"Escuta: eu te deixo ser, deixa-me ser então".
(Clarice Lispector)
É torturante viver algo que eu claramente deveria por natureza ignorar. Não como coisas ofensivas ao mundo, é o tempo distante de mim, como uma escuridão sem espaço pra criar através da arte: o oculto que me aguardara como transição a uma vida como se deve ser às vezes.
O tudo é o proibido. Como quando se é perigoso por algum motivo viver sua vida como ela é dentro de você, presa a uma corda fraca - quase uma cor-, prestes a arrebentar, desmoronar tudo em grandes segredos revelados e uma alegria imensa de eu ser quem sou.
Andar por caminhos descabíveis, apontado como um daqueles feitos em coragem devorada de vida, vulgarizados, sem padrão.
Sofrer em silêncio o amor calado. Quando um ser abandona o outro repentinamente e não se preocupa.
Os girassóis perdem a cor se as nuvens carregadas não despejarem seu pranto e se libertarem do rancor.
Nas atuais circunstâncias, vivemos um samsara - circulo vicioso - industrial. Produzimos à sobrevivência e consumimos suprindo a carência que uma vida global voraz cheia de ícones às informações e ocupações nos traz. Pessoas emitem sons e cheiros, criando barreiras, um escudo que os previne os olhares profundos, foge-se do que deve ser essencialmente delicado.
Viver é um deboche por si mesmo, enquanto a vida nos pisa a negação, exclamando que ela própria não nos vale a pena, nós insistimos em convencê-la de que sim. Um enorme teatro e um palco preenchido por inúmeras velas prestes a serem apagadas, ardendo a chama externa e envelhecendo interiormente.
Mas há a felicidade. Há algo que brota em uma nascente que engrandece a vida. Vem às vezes afogada em maya - ilusão - em meio ao deserto obscuro de nossos medos constantes e proibições acumuladas, nos fazemos possuidores de toda uma ina seca que não nos sacia a sede. Além, existe algo furtivo do ser que percebe sua ausência de si mesmo, vê-se no fundo de um túnel por onde caminhou e assustadoramente deixou-se atrás, violentamente perdido como nas águas negras de um coração sem expectativas, oculto pelo medo da prazerosa dor que a vida pode trazer rompendo a trilha indicada. Sentindo-se vivo em um silencioso espaço transitivo. Deve retornar e abraçar-se dentro do que tornara infértil e adormecido em si, antes que o oco esfumado o engula. Pois quando silêncio é de contemplação da paz das entranhas não se violenta o êxtase.
A alma se decompõe em uma morte quieta. Então o ser depara-se com o que não quer ver em si, e quando o sim e o não do ser entram em contato transborda um choque de ruídos e estrondos deslocando o que antes dormia. No ápice do contato entre o passado constituído e o que o ser abriga ansioso para buscar aos seus próximos dias, um pólen doce de girassol adentra o ar e descobre-se ali a felicidade. Àquele que é o digno amor, o medo, desespero, controle perdido, inveja, calor, mudo de rancor, doce, amargo, azedo, dor gritante e funda de compaixão pelos cegos que pedem esmolas, coragem de viver e gerar novas vidas, filhos de terra em ovário feminino e espinha do masculino. Prova-se dos segredos e morre-se, renova-se à vida, até virem novos segredos.
Felicidade é uma fome secreta.
(Clarice Lispector)
É torturante viver algo que eu claramente deveria por natureza ignorar. Não como coisas ofensivas ao mundo, é o tempo distante de mim, como uma escuridão sem espaço pra criar através da arte: o oculto que me aguardara como transição a uma vida como se deve ser às vezes.
O tudo é o proibido. Como quando se é perigoso por algum motivo viver sua vida como ela é dentro de você, presa a uma corda fraca - quase uma cor-, prestes a arrebentar, desmoronar tudo em grandes segredos revelados e uma alegria imensa de eu ser quem sou.
Andar por caminhos descabíveis, apontado como um daqueles feitos em coragem devorada de vida, vulgarizados, sem padrão.
Sofrer em silêncio o amor calado. Quando um ser abandona o outro repentinamente e não se preocupa.
Os girassóis perdem a cor se as nuvens carregadas não despejarem seu pranto e se libertarem do rancor.
Nas atuais circunstâncias, vivemos um samsara - circulo vicioso - industrial. Produzimos à sobrevivência e consumimos suprindo a carência que uma vida global voraz cheia de ícones às informações e ocupações nos traz. Pessoas emitem sons e cheiros, criando barreiras, um escudo que os previne os olhares profundos, foge-se do que deve ser essencialmente delicado.
Viver é um deboche por si mesmo, enquanto a vida nos pisa a negação, exclamando que ela própria não nos vale a pena, nós insistimos em convencê-la de que sim. Um enorme teatro e um palco preenchido por inúmeras velas prestes a serem apagadas, ardendo a chama externa e envelhecendo interiormente.
Mas há a felicidade. Há algo que brota em uma nascente que engrandece a vida. Vem às vezes afogada em maya - ilusão - em meio ao deserto obscuro de nossos medos constantes e proibições acumuladas, nos fazemos possuidores de toda uma ina seca que não nos sacia a sede. Além, existe algo furtivo do ser que percebe sua ausência de si mesmo, vê-se no fundo de um túnel por onde caminhou e assustadoramente deixou-se atrás, violentamente perdido como nas águas negras de um coração sem expectativas, oculto pelo medo da prazerosa dor que a vida pode trazer rompendo a trilha indicada. Sentindo-se vivo em um silencioso espaço transitivo. Deve retornar e abraçar-se dentro do que tornara infértil e adormecido em si, antes que o oco esfumado o engula. Pois quando silêncio é de contemplação da paz das entranhas não se violenta o êxtase.
A alma se decompõe em uma morte quieta. Então o ser depara-se com o que não quer ver em si, e quando o sim e o não do ser entram em contato transborda um choque de ruídos e estrondos deslocando o que antes dormia. No ápice do contato entre o passado constituído e o que o ser abriga ansioso para buscar aos seus próximos dias, um pólen doce de girassol adentra o ar e descobre-se ali a felicidade. Àquele que é o digno amor, o medo, desespero, controle perdido, inveja, calor, mudo de rancor, doce, amargo, azedo, dor gritante e funda de compaixão pelos cegos que pedem esmolas, coragem de viver e gerar novas vidas, filhos de terra em ovário feminino e espinha do masculino. Prova-se dos segredos e morre-se, renova-se à vida, até virem novos segredos.
Felicidade é uma fome secreta.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
“Um copo perigoso de sede”.
Escrever é um vômito doce de meu único instinto voraz.
Minhas palavras me apunhalam e descem em pequenas doses. Um devaneio arrastado - sem mais enchentes antigas. É meu ovário que surge ao meu lado e completa o feminino e masculino em mim. Quando o lado mais oculto de minha alma me suplica, novamente eu me enveneno e revelo outra enchente, com um pudor quente chocando-se contra o frio fio fino de vida. Há também um período em que o ser vive quieto, como inseto esmagado sobre o chão no canto do cômodo. Sua entranha o entrega a uma melodia que o ensina a calar. Até novamente à renovação.
Minhas palavras me apunhalam e descem em pequenas doses. Um devaneio arrastado - sem mais enchentes antigas. É meu ovário que surge ao meu lado e completa o feminino e masculino em mim. Quando o lado mais oculto de minha alma me suplica, novamente eu me enveneno e revelo outra enchente, com um pudor quente chocando-se contra o frio fio fino de vida. Há também um período em que o ser vive quieto, como inseto esmagado sobre o chão no canto do cômodo. Sua entranha o entrega a uma melodia que o ensina a calar. Até novamente à renovação.
“O girassol em amarelado escurecido como morte.”
É curiosa minha piedade à dor alheia. Uma sombra que me move à pena de mim mesmo. Como se eu mantivesse o sentimento de culpa ao sofrimento do outro em troca da garantia de que irão culpar-se de mim. É como uma impossibilidade de sossego, um desamor sem limite.
Acreditar na pureza da terra alheia é meu segredo de infelicidade.
Acreditar na pureza da terra alheia é meu segredo de infelicidade.
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