segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Fernanda, dou-te meu coração num cesto de laranjas.

Como atrever-me à travessia,
apaixonar-me de alguém como sou de ti?

Meu grande amor, ter asas expulsa-me
de estar pousado em teus cabelos
como meus poros sussurram-me que devo.

Pequenos braços, como possuo, são impotentes...
Aliviar tua tensão! Que vai do alto da testa
(navio atravessando alvoradas pelo denso cru)
ao início de tua nuca, desenhando o cetro
de tua coluna - vertebral triunfo -.

Uma braçada em tuas águas é um suspiro de fome serena pelo mundo.

Ardo de calor, é suor de homem que trabalha o dia todo.
(Sem malandragem, por ti, nem a mania do boto).

Tuas pedras; meu maná -  boca em sangue,
dentes esfarelados clareando o chão:
É minha estrada de pontos luminosos, só tua.

Tenho sol nos olhos, cansaço; bendita, a quem escolho com eternidade.
Quando os sapatos não me cabem, nas longas estradas, para chegar ao teu colo é
que suporto as feridas nos pés.

Nunca soube um bom modo para dar-te as coisas do mundo.
Sei te amar apenas no impossível.

(À Fernanda Pio)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

...

Vaguear
Peito em mudez de absorção
inspiro; suspiro
Oco túnel não me quer
Sou verruga.

sábado, 19 de outubro de 2013

Engenharia do medo; Arquitetura do Silêncio.

Escondo cada cálculo do meu mapa.
Estremeço perante centímetros de chão rachado.
Vivo à margem de mim,
escondido de minhas profundezas,
sozinho
por não deixar que ninguém more dentro de mim
e saiba da minha verdade.
O pecado rubro sufoca minha garganta.
Fujo tanto que não consigo mais escrever.
Emudeci, sem água,
vegetativo e oco. Desesperado por socorro
no meio fio de inúmeras avenidas.
Enlouqueci de minha própria morte que não consigo alcançar.
Arrepia-me ouvir as solas dos pés de meu inimigo
tingido a sangue santo.
Quero chamar meu pai para que me proteja,
chorar em seu colo e peito quentes de fraternidade,
perdoá-lo; sobretudo, sobretudo.
Ou sendo o mais confessional possível,
atirar-me do abismo
que a janela do prédio forja,
saltando,
vingar-me com toda a voracidade
de uma fome comendo o mundo.
Doido sob vários céus escuros e luas,
não sei quem viu,
andei pela cidade
num desejo profundo de morte.
Tranquei o desnorteado dentro de mim,
não saí mais à procura de ser morto,
porque morrer deve doer fisicamente
e fiquei covarde demais depois que apanhei.
Doido, sou meu calabouço. 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

*****

criança no asfalto
catando lixo
morre no semáforo

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Indivisível.

Em selvageria o desejo de ter colo sobe ao alto de meu peito.
Descubro que quero ser pai -
ao meu filho -, tudo o que o meu não foi.


Com os olhos úmidos:
quero salvar minha mãe
de toda aquela solidão de mulher que sofreu.
A noite aparece silenciosa e não tenho em que me segurar.
Os fundos dos meus olhos estão quentes
da lava de lágrimas que nunca escorre.
Como perdoar-me pelo que sou?
Deus, o quanto quis semear algo
além de meus sonhos em névoa.
Esse café frio me dói no estômago.
Todos os dias quando acordo
eu vomito uma estrela de mil pontas.
Depois engulo as pedras cinzas da cidade.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Perdoe-me, Folha Seca.


Delicadeza tua: escorre-me dos dedos, a arraigar a terra...
Procurando a luz,
vejo raízes ganhando vida para além do céu.
Mantenho-me abaixo da terra:
semente e quietude.
Os transeuntes se perderão à minha vista
[que se apaga],
rogo-lhe que se lembre
dos segredos que cultivei em tua pele...
A hidratação das folhas se conteve como meu amor pelo mundo.
Não estou gelado, contudo emudeci.
Nada sei agora e precisaria esperar até a madrugada acabar para sabê-lo
Só [mente] fora do esconderijo,
verdades tuas enraízam-me.
Cicatrizes de esperança:
tento cantá-las,
fogem -
senão pelo fato
de que as amo tanto que matá-las-ia
para que não fugissem.
Minhas últimas pétalas perderam-se no [não] eterno de meus outros olhos;
teus.
 
(João Gabriel Bruscato Mistura)
 
PERDOE-ME, FOLHA SECA.
                                              (Por Stefani Costa)
 
Humildemente
 
Peço licença para contemplar a Folha Seca
 
[tão seca tão esmagada]
 
O barulho do vento faz balançar a poesia de menina
 
[ela corre, o cabelo voa]
 
No outono de 1977 – uma linda rosa se foi:
 
[ninguém pisou nas pétalas enraivecidas]
                                           
Perdoe-me, Folha Seca
 Por tamanho descuido com tua fibra inquebrável 
 
No andar calmo do homem generoso
 
A capa de chuva protege inúmeras lágrimas
 
[elas se movem, não se enxugam e se misturam com a água]
 
As mãos negras encobrem o rosto por onde passa a estupefação
 
[o peito vibra e debruça tudo em formato de eternidade para o Universo]
 
Uma gota exultante mais uma vez recai sob a Folha Seca
 
[a rosa nos observa do céu – serena]
 
Texto inspirado no ensaio fotográfico de Silvia Ferrante — intitulado por mim e por João Gabriel Bruscato Mistura: “Perdoe-me, Folha Seca”.
 
Inspiração necessária após a leitura do romance de Rosinha e Bilú; frutos de um amor disputado entre os dogmas da Igreja, da aristocracia rural sanjoanense, e dos grandes suspiros de elevação ao mais sublime sentimento de todos.
 
(Rosinha morreu em fevereiro do ano de 1977. Mas por causa do título e do “tema” das fotos - eu modifiquei a estação do ano para o Outono - para assim prevalecer o intuito da folha seca. Esta é a única parte em que não fui fiel à história original do livro “A Primeira Dama”, de Silvia Ferrante).
 
("Perdoe-me, Folha Seca" é um trabalho com um poema de João Gabriel Bruscato Mistura e um de Stefani Costa (http://asmaosdojoalheiro.wordpress.com) em agradecimento à Silvia Ferrante, que nos convidou a registrar a vida em fotografias numa velha estação).

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Human[idade]


Madrugada ascendia. A senhora se in-qui-e-ta-va.
Amassar o pão... Sim: tranquilo e branco,
                                                                              [fazer]
o pão dos estranhos, matéria de salvação e ternura,
a massa se revelando – cor e forma – no calor. Cascas
estalando, comer arestas de vida, Pequenos Embriões
                                                                        de Deus.
A mágica do refazer diário vencendo
o limite – impossibilidade dos olhos
Velha e cega em conexão com a fome
                                                                        [alheia]
enterrava os dedos escuros na farinha
                                                                         [branca]
criando as receitas novas. Ao término,
                                                                         [nunca]
revia, ninguém anotava.
Bebia o copo fundo de alegria, ascen-
dia-se com o amanhecer: depositar na
janela, sobre a bandeja de bambu que
ela mesma fizera: o banquete de pães
frescosquentes (ah...!) à venda. Pouco
lucrava, sobrevivia. Assim escolhera e
- brisa leve e morna no coração -
encantara-se.
Após terminado o trabalho, em amor
- num gesto de prosseguir -
deitava-se, exausta, e por ter nova-
                                               [mente]
concluído a magia
e o suor: sonhava.