criança no asfalto
catando lixo
morre no semáforo
Pois eu também tenho a fome. Aquela que não chamamos fome, mas sabemos o quanto é.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Indivisível.
Em selvageria o desejo de ter colo sobe ao alto de meu peito.
Descubro que quero ser pai -
ao meu filho -, tudo o que o meu não foi.
Descubro que quero ser pai -
ao meu filho -, tudo o que o meu não foi.
Com os olhos úmidos:
quero salvar minha mãe
de toda aquela solidão de mulher que sofreu.
quero salvar minha mãe
de toda aquela solidão de mulher que sofreu.
A noite aparece silenciosa e não tenho em que me segurar.
Os fundos dos meus olhos estão quentes
da lava de lágrimas que nunca escorre.
Os fundos dos meus olhos estão quentes
da lava de lágrimas que nunca escorre.
Como perdoar-me pelo que sou?
Deus, o quanto quis semear algo
além de meus sonhos em névoa.
Deus, o quanto quis semear algo
além de meus sonhos em névoa.
Esse café frio me dói no estômago.
Todos os dias quando acordo
eu vomito uma estrela de mil pontas.
Todos os dias quando acordo
eu vomito uma estrela de mil pontas.
Depois engulo as pedras cinzas da cidade.
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Perdoe-me, Folha Seca.
Delicadeza tua:
escorre-me dos dedos, a arraigar a terra...
Procurando a luz,
vejo raízes ganhando
vida para além do céu.
Mantenho-me abaixo da
terra:
semente e quietude.
Os transeuntes se
perderão à minha vista
[que se apaga],
rogo-lhe que se
lembre
dos segredos que
cultivei em tua pele...
A hidratação das
folhas se conteve como meu amor pelo mundo.
Não estou gelado,
contudo emudeci.
Nada sei agora e
precisaria esperar até a madrugada acabar para sabê-lo
Só [mente] fora do
esconderijo,
verdades tuas
enraízam-me.
Cicatrizes de
esperança:
tento cantá-las,
fogem -
senão pelo fato
de que as amo tanto
que matá-las-ia
para que não fugissem.
Minhas últimas
pétalas perderam-se no [não] eterno de meus outros olhos;
teus.
(João Gabriel Bruscato Mistura)
PERDOE-ME, FOLHA SECA.
(Por Stefani Costa)
Humildemente
Peço licença para contemplar a Folha Seca
[tão seca tão esmagada]
O barulho do vento faz balançar a poesia de menina
[ela corre, o cabelo voa]
No outono de 1977 – uma linda rosa se foi:
[ninguém pisou nas pétalas enraivecidas]
Perdoe-me, Folha Seca
Por tamanho descuido com tua fibra inquebrável
No andar calmo do homem generoso
A capa de chuva protege inúmeras lágrimas
[elas se movem, não se enxugam e se misturam com a água]
As mãos negras encobrem o rosto por onde passa a estupefação
[o peito vibra e debruça tudo em formato de eternidade para o Universo]
Uma gota exultante mais uma vez recai sob a Folha Seca
[a rosa nos observa do céu – serena]
Texto inspirado no ensaio
fotográfico de Silvia Ferrante — intitulado por mim e por João Gabriel Bruscato
Mistura: “Perdoe-me, Folha Seca”.
Inspiração necessária após a
leitura do romance de Rosinha e Bilú; frutos de um amor disputado entre os
dogmas da Igreja, da aristocracia rural sanjoanense, e dos grandes suspiros de
elevação ao mais sublime sentimento de todos.
(Rosinha morreu em fevereiro do
ano de 1977. Mas por causa do título e do “tema” das fotos - eu modifiquei a
estação do ano para o Outono - para assim prevalecer o intuito da folha seca.
Esta é a única parte em que não fui fiel à história original do livro “A
Primeira Dama”, de Silvia Ferrante).
("Perdoe-me, Folha Seca" é um trabalho com um poema de João Gabriel Bruscato Mistura e um de Stefani Costa (http://asmaosdojoalheiro.wordpress.com) em agradecimento à Silvia Ferrante, que nos convidou a registrar a vida em fotografias numa velha estação).
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Human[idade]
Madrugada
ascendia. A senhora se in-qui-e-ta-va.
Amassar o pão... Sim: tranquilo e branco,
[fazer]
o pão dos estranhos, matéria de salvação e ternura,
a massa se revelando – cor e forma – no calor. Cascas
estalando, comer arestas de vida, Pequenos Embriões
de Deus.
A mágica do refazer diário vencendo
o limite – impossibilidade dos olhos
Velha e cega em conexão com a fome
[alheia]
enterrava os dedos escuros na farinha
[branca]
criando as receitas novas. Ao término,
[nunca]
revia, ninguém anotava.
Bebia o copo fundo de alegria, ascen-
dia-se com o amanhecer: depositar na
janela, sobre a bandeja de bambu que
ela mesma fizera: o banquete de pães
frescosquentes (ah...!) à venda. Pouco
lucrava, sobrevivia. Assim escolhera e
- brisa leve e morna no coração -
encantara-se.
Após terminado o trabalho, em amor
- num gesto de prosseguir -
deitava-se, exausta, e por ter nova-
[mente]
concluído a magia
e o suor: sonhava.
Amassar o pão... Sim: tranquilo e branco,
[fazer]
o pão dos estranhos, matéria de salvação e ternura,
a massa se revelando – cor e forma – no calor. Cascas
estalando, comer arestas de vida, Pequenos Embriões
de Deus.
A mágica do refazer diário vencendo
o limite – impossibilidade dos olhos
Velha e cega em conexão com a fome
[alheia]
enterrava os dedos escuros na farinha
[branca]
criando as receitas novas. Ao término,
[nunca]
revia, ninguém anotava.
Bebia o copo fundo de alegria, ascen-
dia-se com o amanhecer: depositar na
janela, sobre a bandeja de bambu que
ela mesma fizera: o banquete de pães
frescosquentes (ah...!) à venda. Pouco
lucrava, sobrevivia. Assim escolhera e
- brisa leve e morna no coração -
encantara-se.
Após terminado o trabalho, em amor
- num gesto de prosseguir -
deitava-se, exausta, e por ter nova-
[mente]
concluído a magia
e o suor: sonhava.
sábado, 20 de julho de 2013
VELHA EM MIM
Certa vez, quando ainda era jovem
Endividei-me, deslumbrado, com equipamentos
que cumpririam meu sonho de juventude
Caixas de som, jaquetas, microfones e um violão
Endividei-me, deslumbrado, com equipamentos
que cumpririam meu sonho de juventude
Caixas de som, jaquetas, microfones e um violão
Meus sonhos se foram
com a necessidade da vida de se seguir
E eu que pagava transporte para trabalhar
Fixei-me na ideia de não mais gastar dinheiro
em casos de inclinações
com a necessidade da vida de se seguir
E eu que pagava transporte para trabalhar
Fixei-me na ideia de não mais gastar dinheiro
em casos de inclinações
Em um fim de tarde, voltando do trabalho
deparei-me com uma senhora vendendo mel
No mesmo instante fechei meu mundo para o dela
Afim de que ela não levasse aquilo que era meu
Percebendo, ela se dirigiu a alguém que estava ao meu lado
Nunca a mim
deparei-me com uma senhora vendendo mel
No mesmo instante fechei meu mundo para o dela
Afim de que ela não levasse aquilo que era meu
Percebendo, ela se dirigiu a alguém que estava ao meu lado
Nunca a mim
E lhe pediu vinte reais por uma garrafa de mel da melhor qualidade
Sem sucesso, baixou a oferta para quinze
e depois, com olhos de quem procura em algo sem sabor
uma gota de esperança para manter-se lutando
(quem sabe se não por filhos pequenos)
implorou suavemente: ‘nem dez reais você não tem para me ajudar?’
Sem sucesso, baixou a oferta para quinze
e depois, com olhos de quem procura em algo sem sabor
uma gota de esperança para manter-se lutando
(quem sabe se não por filhos pequenos)
implorou suavemente: ‘nem dez reais você não tem para me ajudar?’
Ouviu que não e seguiu em frente, sem nem falar comigo
que recusei sua proposta antes mesmo que a fizesse.
que recusei sua proposta antes mesmo que a fizesse.
Senti dentro de mim que os sapatos daquela senhora
eram surrados como nada em mim foi, e suas pernas,
de tanto caminhar a procura de algo que o mundo esqueceu-se de ter,
estavam mais cansadas do que meu coração jamais estaria.
eram surrados como nada em mim foi, e suas pernas,
de tanto caminhar a procura de algo que o mundo esqueceu-se de ter,
estavam mais cansadas do que meu coração jamais estaria.
Nunca mais me curei da porção dela que ficou em mim.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Por raiva; (ou pureza rasgada como lixo).
Estou me violando, escondo o quanto meu peito murmura a cavidade
que arquitetei. Calei-me em guerra por muito medo. Quero morrer para não matar;
morro todos os dias. O mundo tem fome e eu perdi a consciência disso porque
sequei e não sinto sequer minha própria fome. O coração vem à boca, engolimos:
queima e desce.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Ensaios sobre os 'Anjos da Noite'.
Ensaio I
Os olhos:
ruídos, em lava penetram a terra
corvos no espelho da noite
luz sedenta do raio
asas ventando
anjos
lábios – navalha de nervos
cacos
mictórios
tão belo feio
hienas dançando
aurora azul, sem fuga
silenciar&deslizar sorrindo
cravando rochas humildes yin
História.
ruídos, em lava penetram a terra
corvos no espelho da noite
luz sedenta do raio
asas ventando
anjos
lábios – navalha de nervos
cacos
mictórios
tão belo feio
hienas dançando
aurora azul, sem fuga
silenciar&deslizar sorrindo
cravando rochas humildes yin
História.
(João Gabriel Bruscato Mistura)
Ensaio II
A noite vem com sua majestade cósmica
Acredita ter o poder absoluto sobre tudo
A noite vem, engole o dia pouco a pouco
E saboreia esse cálice de vida
Acredita ter o poder absoluto sobre tudo
A noite vem, engole o dia pouco a pouco
E saboreia esse cálice de vida
A noite sempre se sente soberana
Aterroriza alguns com suas sombras e sons
Encanta a outros com seus mistérios
Aterroriza alguns com suas sombras e sons
Encanta a outros com seus mistérios
Em meio a isso três pontos aparecem
Encaram a noite mágica e poderosa
Travam batalhas que só eles conhecem
Instigam o mundo e espalham vida
Encaram a noite mágica e poderosa
Travam batalhas que só eles conhecem
Instigam o mundo e espalham vida
A noite não se conforma, mas não tem o que fazer
Afinal, não é tão poderosa assim
Os Anjos acontecem….
Afinal, não é tão poderosa assim
Os Anjos acontecem….
(Silvia Ferrante)
Ensaio III
Os Anjos da Noite não escutam alto e ponderam o som. O volume máximo que podem alcançar fica dentro do belíssimo e absoluto silêncio. Há um enorme estandarte azul fazendo-os tropeçar, como as ditas e reconhecidas rasteiras da vida. Naquela noite dentro do bosque esfumaçado, a garota de pele branca ajoelhou-se em sinal da cruz e protegeu os olhos dos que mentiam somente para saber do que se tratava o ocorrido.
Armados por espadas: lançam chamas; não haveria como trapacear um grande jogo de azar. O vulto inesperado passou por detrás das campanas, dos chalés adormecidos por pura diversão imensamente apaziguadora. Se for aquele um visitante qualquer, bastava a expulsão e examinação dos corpos.
O mais raro da ocasião de dividir um culto com os aprumados pensamentos que rondam à cabeça dos curiosos, era, certamente a composição do enredo. No centro, no alto, o mais emblemático deles. Cabelos de Anjo esvoaçado pelo tempo. Não há espaço para rugas, elas foram perdidas por uma juventude forte, incansável. No círculo intermediário o Anjo da Asa Quebrada, uma posição crucial para o desempenho na luz, no vento, no estardalhaço. Fechando a tríade incomum dos jornais, O Anjo, de tão metálico era loquaz, infinito, não-padrão.
Ajudavam o resto da humanidade na consistência de que a verdade é concebível ou não, mas o ponto de partida atravessa gerações e séculos.
[Stefani Costa - http://asmaosdojoalheiro.wordpress.com/]
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